Com a chegada da época mais fria do ano, um grupo de doenças como gripe, resfriado e otite se multiplica. E são as crianças as que mais sofrem na estação
Cravar um único responsável por esse roteiro de sintomas incômodos nem sempre é fácil. O calor humano (leia-se: a aglomeração de pessoas em ambientes fechados), em vez de esquentar, transmite doenças. O ar mais seco cria condições favoráveis para a entrada de vírus e bactérias nas vias aéreas. "A mucosa do sistema respiratório possui cílios que removem, juntamente com o muco, as partículas indesejáveis que inalamos. Eles funcionam como filtros", explica a otorrinolaringologista Renata Lopes, do Hospital das Clínicas.
Na época mais fria do ano, um grupo de doenças como gripe, resfriado e otite se multiplica. E são as crianças as que mais sofrem na estação
No Brasil, o inverno começa, oficialmente, no dia 21 de junho. A chegada da estação mais fria do ano requer cuidados específicos com a saúde, especialmente com a das crianças. Nesta época, o ar fica mais seco. E é esse fator que facilita a propagação de vírus e bactérias. A baixa umidade do ar também dificulta a eliminação do catarro acumulado nos pulmões, favorecendo a instalação de bactérias no aparelho respiratório. A transmissão dos agentes causadores de doenças infecciosas é elevada à décima potência quando ficamos muito tempo em lugares fechados e aglomerados. É a soma desses fatores que faz o número de crianças — e de adultos — doentes aumentar no inverno.
Entre as doenças de maior incidência estão aquelas causadas por infecções do trato respiratório, frequentemente provocadas por vírus que são transmitidos de pessoa para pessoa. É por isso que o número de casos de gripe, resfriado, amidalite, entre outras, se multiplica.
O risco que a criança corre
Vírus e bactérias não distinguem indivíduos. Entretanto, os efeitos de suas infecções serão maiores em idosos e crianças, especialmente nos bebês. Esses dois grupos sofrem pela fragilidade de seus sistemas imunológicos, responsáveis por conter os ataques desses agentes ao organismo.
Se na infância o mecanismo de defesa está em desenvolvimento e ainda não criou anticorpos contra os mais comuns invasores, na terceira idade esse recurso já não apresenta a mesma eficiência de um corpo jovem. “As crianças, principalmente as lactentes no primeiro ano de vida, têm seu sistema imunológico em desenvolvimento e suas vias aéreas superiores ainda são muito estreitas”, ensina Lucilia Santana Faria, pediatra e coordenadora da UTI Pediátrica do Hospital Sírio- Libanês. Essas características facilitam o desenvolvimento de doenças respiratórias.
O resfriado e a gripe lideram entre as patologias mais incidentes na infância. De acordo com a especialista, as crianças têm entre 8 e 12 episódios de cada uma dessas doenças por ano, representando uma média de um caso a cada 30 a 60 dias. Em seguida, com até cinco casos por ano, aparecem doenças como amidalite, otite, bronquiolite, laringite, sinusite e bronquite. Já as crises de asma — doença crônica mais incidente nas crianças — se multiplicam quando associadas a quadros de resfriados ou gripes.
“Entre as mais comuns, é preciso tomar cuidados com a bronquiolite, uma infecção das vias respiratórias que acomete crianças até os 2 anos de idade, com pico de incidência aos 6 meses”, indica a pediatra Lucilia.
A transmissão da doença
“Após uma tosse ou espirro, milhares de vírus são eliminados para o ambiente próximo, por isso a importância de cobrir o nariz e a boca quando se tosse ou espirra. Caso contrário, outras pessoas vão respirar o ar com os vírus eliminados”, fala Lucilia. Outra forma de se contrair os vírus é pelas mãos de um indivíduo doente, que a usou para cobrir a boca ao espirrar ou tossir. A transmissão, entretanto, só acontecerá quando o indivíduo levar as mãos infectadas à boca ou ao nariz. “Os vírus entram por esses canais e se alojam no trato respiratório, podendo parar no nariz e garganta, na orelha, nos seios paranasais ou na laringe. Em alguns casos, eles podem chegar até a traqueia, brônquios, bronquíolos e alvéolos”, completa Lucilia. O mecanismo de transmissão também ocorre no contato indireto de objetos contaminados. É por isso que estimular as crianças a lavar as mãos constantemente é uma das atitudes mais importantes contra todas as doenças do inverno.
“Pessoas contaminadas com esses vírus começam a transmitir os agentes um dia antes de apresentarem os primeiros sintomas e continuam espalhando a doença até cinco dias após o início dos sinais, em adultos”, explica Sônia Mayumi Chiba, médica do departamento de Pneumopediatria da Sociedade Paulista de Pneumologia e Tidiologia (SPPT). No caso das crianças, esse quadro é ainda mais complicado: elas lançam os micro-organismos no ar até dez dias após o início dos sintomas.
Para não acontecer com seu filho
Nosso sistema de defesa só aprende a lidar contra uma espécie de vírus ou bactéria quando é infectado e consegue criar um mecanismo químico eficiente contra esse agente. É assim que criamos anticorpos. Com base nessa proteção interna, a medicina criou as vacinas. “A imunização contra o vírus influenza (da gripe) é o principal recurso contra a doença”, destaca Sônia. A proteção é aplicada a partir dos 6 meses de idade. O recurso ajuda a prevenir os casos de gripe ou, pelo menos, a atenuar os sintomas em um indivíduo infectado.
Para a maioria dessas doenças, o tratamento é sintomático, ou seja, são terapias para aliviar os sintomas. Uma das principais recomendações, comum a todos os casos, é a ingestão de líquidos para manter as secreções fluidas.
Estimular as crianças a lavar as mãos constantemente é uma das atitudes mais importantes contra as doenças do inverno
Gripe
O que é: uma infecção causada pelos vírus influenza. São micro-organismos que mudam de características biológicas constantemente, dificultando o sucesso do processo imunitário do organismo. A gripe é uma doença altamente contagiosa. A transmissão ocorre pelo ar, quando pacientes falam, espirram e tossem, e, indiretamente, pelas mãos e por objetos contaminados.
Sintomas: dor muscular, dor de cabeça, febre alta, calafrios, fraqueza, tosse seca, espirros e coriza.
Tratamento: medicamentos antivirais para o combate do agente e para o controle da febre e da dor muscular, além de descongestionantes e antitussígenos.
Vacina: deve ser administrada anualmente a partir dos 6 meses de idade.
Resfriado
O que é: a doença, apesar de ser confundida com a gripe (por causa dos sintomas semelhantes), é causada por outro tipo de vírus. Os resfriados, porém, são mais leves.
Sintomas: espirros, tosse, dor de garganta, dor muscular, secreção nasal intensa, dor de cabeça e febre baixa.
Tratamento: o sistema imunológico consegue combater o vírus naturalmente. Os medicamentos receitados por especialistas são indicados para aliviar os sintomas.
Vacina: não há.
Amidalite
O que é: inflamação das amídalas — estrutura que serve como filtro no fundo de nossa garganta, evitando a passagem de infecções da boca e dos seios da face para o resto do corpo. Pode ser causada por vírus ou por bactérias.
Sintomas: dor de garganta, dor ao engolir, febre, mau hálito e, às vezes, inchaço dos gânglios do pescoço.
Tratamento: quando se observam pontos purulentos no fundo da garganta, é um indício da ocorrência de uma infecção bacteriana e, nesse caso, se utilizam antibióticos. Cirurgias para remoção das amídalas só em casos que não respondem ao tratamento.
Vacina: não há.
Rinite
O que é: caracterizada por inflamação ou irritação da mucosa do nariz, causada por vírus, bactérias ou reações alérgicas (poeira, fumaça de cigarro ou poluição). É a doença alérgica mais comum.
Sintomas: espirros, coriza, coceira e entupimento das vias nasais.
Tratamento: une medicamentos para aliviar os sintomas e os anticongestionantes. Entretanto, o mais indicado é evitar o contato com os agentes desencadeantes.
Vacina: não há.
Sinusite
O que é: causada por alergias, infecções virais ou bacterianas. Os agentes provocam uma inflamação da mucosa e das cavidades do crânio em torno do nariz. Pode ser classificada como aguda, quando é leve e de rápida recuperação; ou crônica, nos casos em que os sintomas vão e voltam.
Sintomas: dor de cabeça, inchaço nas pálpebras, nariz entupido e dor nos olhos.
Tratamento: para casos agudos são receitados descongestionantes. Os casos crônicos são tratados com antibióticos.
Vacina: não há.
Bronquite
O que é: uma inflamação dos brônquios, que impede a chegada do ar aos pulmões. A forma aguda é causada por vírus e bactérias. A crônica é recorrente e pode não ser fruto de infecção. Em alguns casos, está ligada a alergias e é agravada com o fumo ou o contato com fumantes.
Sintomas: tosse seca com chiado seguida por tosse com eliminação de catarro, dor no peito, fadiga, mal-estar e febre.
Tratamento: para os casos agudos, que geralmente desaparecem naturalmente em alguns dias, são recomendados medicamentos para atenuar a tosse. Indivíduos que convivem com quadros crônicos podem tomar remédios para aliviar a inflamação dos brônquios. Para os dois casos, os broncodilatadores podem ser indicados. Os pacientes devem evitar o contato com fumaça de cigarro, poeira, poluentes ambientais e químicos.
Vacina: não há.
Asma
O que é: conhecida por ser uma doença comum em crianças, mas pode surgir em adultos a partir de infecções por vírus e bactérias. Não há como prevenir o surgimento da asma, mas ela pode ser controlada desde que o tratamento seja seguido à risca.
Sintomas: chiados no peito, tosse e sensação de falta de ar.
Tratamento: é uma doença ainda sem cura conhecida. Os fármacos receitados variam conforme a gravidade da doença. Para os casos intermitentes (leves) são indicados broncodilatadores. Já para os pacientes com quadros persistentes, os anti-inflamatórios ajudam a controlar as crises.
Vacina: não há.
Pneumonia
O que é: infecção aguda dos pulmões, causada por bactérias, vírus ou fungos. Os alvéolos pulmonares ficam cheios de pus, além de muco e líquidos, o que impede a respiração correta.
Sintomas: tosse com catarro, dor no peito, calafrios, suor, palidez e febre alta.
Tratamento: com antibióticos até que se comprove a presença de vírus.
Vacina: apenas contra dois agentes causadores da doença, ambas administradas a partir dos 2 meses de idade
Otite
O que é: infecção bacteriana da orelha média, muito comum em crianças. Normalmente, vírus e bactérias que infectaram a garganta migram até a orelha e se multiplicam.
Sintoma: dor de ouvido.
Tratamento: embora os vírus sejam os principais desencadeadores, se utilizam antibióticos pelo alto risco de infecções bacterianas no local.
Vacina: apenas contra o Hemofilus influenza, também usada contra a pneumonia.


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